Atlas

Projeto de investigação artística

Um real e ficcional. Uma paisagem, uma palavra, uma fantasmagoria, cuja a imagem concerne uma apologia ao “universal”. Universalizante. Suas desinências, seus múltiplos significados repletos de delusão revelam o Abismo, concernem poder. Este pélago profundo na paisagem conduziu o extremo para uns, e uma convenção suave e aproveitável para outros, o Atlântico.

Nesse realismo austero e individual do Ocidente, Atlas tanto é titã da mitologia grega, condenado por Zeus a “sustentar os céus” para toda a eternidade, por ter tentado atacar o monte Olimpo. Conhecido pela imagem em que carrega o mundo às costas, literalmente, apoiado sobre um outro atlas que é a primeira vértebra cervical da coluna. Como o conjunto de mapas cartográficos; e o volume de ilustrações elucidativas de um texto ou de uma área do conhecimento.

Oceano Atlântico, outrora conhecido por Mar Tenebroso, cujo nome deriva precisamente do titã mencionado anteriormente e que remete a essa imagem, do mundo ocidentalizado. Imagem que seria utilizada pelo pensamento tríptico imperial-colonial-ocidental e que concebe a relação entre humano e o mundo a partir de uma relação de poder. Atlântico, esse sedimento, que foi palco das invasões coloniais e tráfico de pessoas escravizadas perpetuou dores e traumas, através do seu nomadismo em flecha. Mediado pela pulsão totalitária de raiz única.

As imagens contam histórias inventadas, consolidadas ao longo de séculos e através das mais violentas estratégias. Que imagens formam a nossa memória coletiva? A nossa história? A nossa identidade? Quem sou eu? Quem é o Outro?

ATLAS é uma investigação multidisciplinar e artística, resultado da seleção no projeto MANIFEST: Novas perspectivas artísticas sobre as memórias do tráfico transatlântico de pessoas escravizadas - um projeto artístico e educativo, co-criado pela Comissão Europeia, sob o programa Europa criativa, que visa contribuir para a reimaginação da memória colectiva da Europa sobre o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas.

Foram selecionados onze projetos, de artistas residentes em diversos países da Europa, entre os quais ATLAS. De duas residências artísticas, em Zsennye e em Lisboa (2023), os projetos foi apresentados numa exposição coletiva, em Nantes (2024), cidade portuária e com uma história intimamente ligada ao tráfico transatlântico.

Com o apoio de criação da Direção Geral das Artes, foi possível continuar a desenvolver a pesquisa e o projeto, em território nacional (2025).

O projeto inclui assim uma exposição audiovisual composta por 4 obras audiovisuais, que exploram quatro símbolos: caravela, cruz, açúcar e a bandeira. Foi desenvolvido também um web-arquivo - o nosso atlas - com toda a pesquisa realizada durante o projeto.A apresentação do projeto em Portugal incluiu um workshop e duas conversas abertas ao público.

Obras

Com foco nas invasões coloniais ("os descobrimentos"), ATLAS desdobra-se na produção de quatro obras audiovisuais, cada uma centrada num símbolo visual chave: a caravela, o açúcar, a cruz e a bandeira.

Através do cruzamento entre técnicas de design, animação digital, apropriação de materiais de arquivo e multimédia, o projeto analisa a história da colonização desde o século XVI até à contemporaneidade, procurando evidenciar como a imagem foi, e continua a ser, essencial à construção da narrativa colonial e as suas reverberações na memória e identidade portuguesa e europeia.

Símbolos

A construção da narrativa colonial e, por consequente, da identidade nacional portuguesa, é um processo contínuo e inacabado. Hoje o mundo inteiro, mas principalmente o mundo ocidental, depara-se com a chamada "crise da migração", que nada mais é do que o rescaldo de séculos de invasões, escravatura e marginalização de povos indígenas ou afro-descendentes. As mazelas da colonização ainda se sentem e as narrativas imperialistas e coloniais têm sido reforçadas por grupos e partidos de direita e extrema-direita, com o objetivo de distrair a população dos reais problemas que enfrenta, nomeadamente a privatização neoliberal de todos os serviços públicos e a excessiva migração temporária dos "expats" ( imigrantes considerados de classe superior por serem ocidentais).

Portugal é um caso específico, onde ainda se fala de "descobrimentos" em relação às invaões coloniais do século XV e em que a história de colonização tem sido reapropriada pela extrema-direita de forma a resgatar sentimentos nacionalistas, xenófobos e racistas, que foram tão característicos do período do Estado Novo.
Assim, usamos estes símbolos para explorar os mitos que criaram: a caravela enquanto símbolo máximo do mito do colonizador herói e das invasões enquanto "descobrimentos"; o açúcar enquanto commodity que foi a razão principal pela captura e tráfico de milhares de pessoas escravizadas, levadas à força dos seus teritórios no continente africano para o Brasil; a cruz enquanto símbolo do mito da missão de fé que justificou as atrocidadez cometidas e que ainda hoje esconde a violência da evangelização, por trás de figuras como o Padre António Vieira; e por último, a bandeira, um símbolo cheio de simbologias em si mesma, e que nos serve para falar de nacionalismo, identidade, fronteiras e pertencimento.

Exposição

As obras foram apresentadas em duas exposições. A primeira, em Nantes (2024), como finalização do trabalho desenvolvido em residências, no contexto do projeto MANIFEST. A segunda, uma exposição individual, site-specific no CACE Cultural (Central Elétrica), no Porto (2025).
A possibilidade de expôr as quatro obras num espaço com diferentes salas, (ao invés de projetadas, em simultâneo, numa só parede, como foi o caso em Nantes),permitiu um novo desdobramento do projeto e uma maior imersão do público. Cada símbolo foi exposto em salas diferentes, obrigando o público a circular pelo espaço. Ao entrar no espaço, o video do Açúcar inicia a experiência no tema, seguindo-se a sala da bandeira, onde deixámos um espaço aberto a intervenções do público sobre uma parede forradas de imagens coloniais. Subindo as escadas, o espectador passava pela intervenção do artista convidado Pedro (Dalai) que reflete sobre a Casa-Grande e Senzala. No andar de cima, duas salas frente a frente, a da Caravela e da Cruz.

O material de divulgação incluiu postais com cada símbolo, folhas de sala com informação sobre o projeto, a pesquisa e as obras e ainda a produção de cartazes serigráficos, realizados por Rodrigo Neto (Oficina Atalaia), que foram distribuídos gratuitamente aos visitantes da exposição.

Workshop

Miradas Decoloniais

Como parte da apresentação do projeto em território nacional, desenvolvemos um workshop colaborativo de 3 horas, que propõs uma reflexão crítica e artística sobre a representação colonial/imperial nas imagens históricas. Com base em práticas de foto-elicitação expandida e intervenções gráficas, a atividade buscou subverter imaginários coloniais e estimular a criação de novas narrativas visuais decoloniais dentro do campo do design. Ao longo da experiência, os participantes analisaram imagens do projeto ATLAS e realizaram intervenções gráficas que desafiam estéticas hegemônicas e propõem olhares/miradas alternativas. O processo culminou numa troca e discussão coletiva.

O workshop teve dois momentos, um teórico e outro prático, e foi resultado de uma parceria com o mestrado em Design da Imagem da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto e com a Bikini Books.

Conversas

Ao longo do desenvolvimento do projeto, a pesquisa foi apresentada também através de conversas abertas ao público.

Estes momentos tinham como objetivo a criação de um espaço para partilha e reflexão sobre o processo criativo, o uso do design e do audiovisual na construção de contra-narrativas e a apresentação do web-arquivo resultante da pesquisa. Interessava-nos discutir e debater coletivamente sobre como pensar o atlas não só como ponto de partida, mas também como método e, sobretudo, como tirar essa pesquisa do meio académico e levá-la às ruas, onde o debate pulsa?

A primeira conversa teve lugar no Hangar - Centro de Investigação Artística, em Lisboa (2024), mediada por Nuno Coelho e a segunda, já na fase de finalização do projeto, foi realizada na Bikini Books, após a inauguração da exposição no Porto, mediada por Nina Paim (2025).

Web-arquivo

De forma a compilar a pesquisa realizada ao longo do projeto de forma mais consistente e prática, foi criado um web-arquivo - o nosso atlas.

É aqui que se pode ser sobre o projeto, as suas motivações e objetivos, bem como ter acesso a uma coleção de imagens (desde gravuras do século XVI até imagens contemporâneas) devidamente identificadas e contextualizadas, dentro do tema da colonização.

As imagens têm associação entre elas, permitindo visualizar de forma mais concreta, como a narrativa colonial e imperialista foi construída ao longo de séculos.

Direção artística pedro&inês
(Inês Costa e Thiago Liberdade)
Sound design Thiago Gondim e Yuri Bonfim
Webdesign Hugo Sá (bymutuo)
Design Gráfico Thiago Liberdade
Gestão financeira Trema! (Pedro Vilela)
Apoios

O desenvolvimento da pesquisa deste projeto foi possível graças ao programa de residências artísticas em Budapeste e em Lisboa, financiado pelo consórcio MANIFEST, co-criado pela Comissão Europeia. As apresentações públicas em Portugal e o desenvolvimento do website foram apoiadas pela DGARTES.